Pega na minha mão e me ampara. Me ajuda a escolher um caminhozinho sequer. Me ajuda e vem comigo. Quero ficar só, mas um só que você esteja junto. Perto. Homogêneo. Porque de alguma forma, somos um. E eu amo isso. Quero que por uns dias todo mundo me abandone. Quero que por uns dias só você me estenda os braços pra me amar. Espera, tem uma coisinha nos meus olhos. Parece lágrima, mas eu acho que é amor. Amor de verdade. Amor teu.
—Roberta Vicente   (via an-titese)

(Source: vasodeporcelana, via xuxuxuxuxuux-deactivated2014011)

Versos Soltos...: "Sigo a vida conforme o roteiro, sou quase normal por fora, pra...

versossoltos:

"Sigo a vida conforme o roteiro, sou quase normal por fora, pra ninguém desconfiar. Mas por dentro eu deliro e questiono. Não quero uma vida pequena, um amor pequeno, um alegria que caiba dentro da bolsa. Eu quero mais que isso. Quero o que não vejo. Quero o que não entendo. Quero muito e quero…

da tua memória

A ciência define uma relação íntima entre memória e aprendizado, permeada por muitas semelhanças e diferenças. Ambos os processos são disparados por um estímulo, o qual representa uma informação que foi apresentada ao corpo e que será mandada até o cérebro por uma rede de neurônios, em forma de sinais elétricos. Nesse sentido, memória e aprendizado estão entrelaçados: o aprendizado se dá quando uma informação (ou estímulo) nova chega ao cérebro e contribui para provocar uma mudança na conexão entre os neurônios envolvidos com ela. Essa mudança, por sua vez, constitui a formação da memória. Assim, quando repetido muitas vezes, um estímulo gera a perpetuação da alteração da estrutura neuronal. Quanto mais estímulos e menor o espaço de tempo entre eles, mais efetivas se tornam as novas conexões e, pois, mais rapidamente ocorre a consolidação de um aprendizado, gerando a memória. Nesse sentido, as memórias serão divididas em memória de curta duração – quando a alteração é fraca e transiente, passível de reestruturação (o que configura o esquecimento) – ou longa duração – quando a alteração se torna permanente. Quando um aprendizado é consolidado, toda vez que o estímulo que o gerou é apresentado ao cérebro, ele não contribui mais para a alteração das conexões neuronais, pois estas já estão estabelecidas – ao contrário, ele possui apenas o papel de “reativá-las” e esse processo constitui a lembrança.

Havia um par de olhos morenos subindo no ônibus. Percebi-os assim que o motorista parou naquele fatídico ponto de Benfica, de maneira quase automática, para que os passageiros entrassem. E dentre eles, lá estava você, amor. Personificado naqueles belos olhos rasgados, tão escuros e misteriosos quanto a água do mar, que posso ver da janela esta noite. Traziam o desenho felino, cheio de desafio e provocação que eu me lembrava – um ar que eu jamais vira em quaisquer outros orbes – embora mascarado por um vazio que não me foi possível apreender como um todo. O corpo a que pertenciam caminhou ate o fim do coletivo e jogou-se dois bancos a frente do meu, num misto de displicência e cansaço. Parecia perdido. Talvez estivesse.

De resto, não se parecia em todo contigo. Tinha os cabelos pretos brilhosos, é verdade, e a pele de cobre, pincelada com o dourado do sol de verão. Mas se as cores eram parecidas, os formatos eram diferentes – o corte de cabelo em nada me lembrava você, muito menos as proporções físicas. E após constatar isso, me peguei lembrando de detalhes do seu corpo, quer eu os conhecesse quer eu os tivesse visto somente em minha mente: o nariz reto; os lábios grossos e sempre separados, cujo pequeno espaço me instigava de uma maneira inimaginável; o lóbulo da orelha preso; os ondas negra das madeixas que lhe vinham até o pescoço; as mãos com as veias saltadas; a barba por fazer; a forma como tua pele brilhava e combinava perfeitamente com os dias ensolarados; a curva das tuas costas; teus dois ou três centímetros a mais que os meus. Essas e outras lembranças me invadiram os pensamentos enquanto eu olhava, embora sem ver, absolutamente alheia a todas as outras vidas ao meu redor, para o colarinho da camisa social de um completo estranho, cuja cor preta combinava perfeitamente com o tom da pele e cujos olhos me faziam voltar anos no tempo e quilômetros no espaço.

Não sei quanto tempo perdi naquele jogo da memória e, como diria o mestre, somente os relógios do céu terão marcado este tempo infinito e breve. Sei porém que, certa altura do trajeto, dei por mim que não me lembrava da tua voz. Tinha apagado há anos os recados que me mandava e que ficavam todos salvos numa pequena pasta do computador. Apagara por desencargo de consciência, é verdade, numa tentativa desesperada de me ver livre das tuas reminiscências. Mas se os artefatos materiais já não me podiam incitar a saudade, a memória o fazia, pois eu ainda sabia de cor todas as tuas palavras. “Você é linda, sua boba. E eu te amo, muito, muito, muito”. Palavras sem som.

E por mais que eu tentasse, não conseguia fazer ecoar teu timbre em meus pensamentos. Sabia tuas frases, lembrava-me até o quanto gostava da tua voz rouca, baixa e grave. Mas dela, em verdade, nem um traço sequer. Ocorreu-me, naquele momento, que tuas outras marcas, as físicas, talvez não houvessem se apagado do meu espírito dada a facilidade em sempre reencontrá-las – um perfil de rede social, uma foto guardada a sete chaves, um estranho na rua. Tua voz, porém, havia se perdido para sempre, sem possibilidade de recuperação de gravações, mensagens, ligações. E somado ao fato de que eu jamais encontrara alguém com uma parecida numa esquina dessa vida, acabei por esquecê-la totalmente. Hoje, acho que já não seria capaz de reconhecê-la, caso a ouvisse, mesmo que chamasse meu nome.

Pensei nas outras pessoas que haviam entrado na minha vida, mas não permanecido e, para todas, cheguei ao mesmo resultado: rostos sem vozes. A conclusão que daí advém é que, por mais que eu lamente, já os esqueci, pelo menos em parte e mesmo que inconscientemente. E isso inclui você, meu amor. Por tanto tempo desejei apagar tuas injúrias, teus erros e imperfeições, mas o plano saiu pelo avesso: perdi o que desejava manter, enquanto teus defeitos, tua partida e nosso fim ainda assombram minhas noites de sono, amargam o sabor do meu beijo e me atam as mãos. Esqueci-te sem querer esquecer. E o que isto tudo quer dizer? De alguma forma, o corpo trabalha sem nossa permissão e nos tira aquilo que julgamos caro, fazendo, contudo, questão de deixar viva a parte suja. Isso é um algum desafio? Ou uma forma de estímulo? Permanência de memórias quer dizer aprendizado. Mas por que, então, memórias tão indesejáveis? Onde está a linha tênue que define tudo isso?

Seja qual for a resposta, uma coisa é certa: talvez seja isso o que torne as pessoas tão tristes e amarguradas. Olhe pra mim. Há algum tempo atrás, eu estava coberta de cicatrizes. Hoje, muitas desapareceram. Mas as remanescentes só trabalham para reavivar o lado negro de toda esta experiência. Não doem, não sangram – estou curada. Mas sempre que olho pra elas, um vazio e tristeza enormes tomam conta de mim. Será que um dia sumirão como as outras e, então, não me sobrará nada além da vaga familiaridade do teu nome? Duvido muito. Aliás, se você olhar com atenção, vai perceber que há uma nova na coleção, amor. Discreta, por sobre o ombro direito. Posso senti-la - ela é ferida aberta, latejante. E o sangue que agora me escorre pelo braço vai escrevendo em linhas rubras e tortuosas que, assim como esta ferida, um dia, estará curada, você estará esquecido. Ou que assim como este rapaz para quem olho, agora, sentada nesse ônibus, em alguns minutos se levantará, descerá e seguirá seu caminho para nunca mais cruzar o meu, você também sairá da minha vida. Aos poucos, nada sobrará da dor quente que agora sinto senão um traço imperceptível, quase invisível, sobre o ombro direito. Nada mais sobrará da figura ali sentada, dois bancos a frente do meu. E nada mais sobrará de você senão estas cicatrizes. Eu o estou perdendo, amor. Irremediavelmente. Para sempre.

showslow:

Empire of Liberty by Diogo Hornburg

showslow:

Empire of Liberty by Diogo Hornburg

(via transbordante)

“Às vezes, temes que eu não te ame tanto quanto gostarias? Minha querida, eu te amo sempre e eternamente, sem reservas. Quanto mais conheci, mais amei. De todas as maneiras até meus ciúmes foram agonias de amor; no mais violento acesso que sofri, teria morrido de amor por ti. Já te atormentei demais, mas por amor! Posso evita-lo? Sempre te renovas. O último dos teus beijos sempre foi o mais doce, o último sorriso o mais luminoso, o último gesto, o mais gracioso. Ontem, quando passaste diante da minha janela, fiquei tão cheio de admiração como se te visse pela primeira vez”. 

"Estrela Brilhante! Fosse eu imóvel como tu!
Não suspenso da noite como uma luz deserta,
A contemplar, com a pálpebra imortal aberta,
Monge da natureza, insone e paciente
As águas móveis na missão sacerdotal
De abluir, rodeando a terra, o humano litoral,
Ou vendo a nova máscara – caída leve
Sobre as montanhas, sobre os pântanos – da neve,
Não! mas firme e imutável sempre, a descansar
No seio que amadura de meu belo amor,
Para sentir, e sempre, o seu tranqüilo arfar,
Desperto, e sempre, numa doce inquietação,
Para seu meigo respirar ouvir em sorte,
E sempre assim viver, ou desmaiar na morte.”(John Keats, Bright Star) 

"Estrela Brilhante! Fosse eu imóvel como tu!

Não suspenso da noite como uma luz deserta,

A contemplar, com a pálpebra imortal aberta,

Monge da natureza, insone e paciente

As águas móveis na missão sacerdotal

De abluir, rodeando a terra, o humano litoral,

Ou vendo a nova máscara – caída leve

Sobre as montanhas, sobre os pântanos – da neve,

Não! mas firme e imutável sempre, a descansar

No seio que amadura de meu belo amor,

Para sentir, e sempre, o seu tranqüilo arfar,

Desperto, e sempre, numa doce inquietação,

Para seu meigo respirar ouvir em sorte,

E sempre assim viver, ou desmaiar na morte.”

(John Keats, Bright Star) 

artiebagagli:

Paul McCormack - Hope (Watercolor)

artiebagagli:

Paul McCormack - Hope (Watercolor)

artiebagagli:

Vladimir Volegov - Little Girl and Cherries

artiebagagli:

Vladimir Volegov - Little Girl and Cherries

se quer mesmo saber de mim

O que eu sou não lhe diz respeito, em parte nenhuma lhe toca. Nasci para poucos e morro por quase ninguém. Contradigo-me em passos de dança invisíveis, enlaçando pernas e prendendo bocas, querendo muito e gostando tão pouco. Não é insatisfação ou sofrimento, é só um tudo ao mesmo tempo agora que não respeita amor de menos, não aceita um gostar pouquinho e querer às vezes. Uma intensidade que não se conforma com noites únicas de começo, meio e fim. Se estou aqui é pela música, pela companhia, pra me perder. Jamais pra desperdiçar uma noite com quem não sabe conversar.

Não me pergunte o que eu faço da vida, isso é banal, é triste, é comum. Queira saber o que me faz feliz, meu ponto fraco pras cócegas. Não pergunte o que me dá dinheiro, porque este é o menor dos meus sucessos. Esqueça meu nome verdadeiro, se eu venho sempre aqui, se estou gostando da música. Agir sem naturalidade é o seu maior fracasso.

Se é mesmo importante que eu responda as perguntas que tanto desprezo, se definir o que sou vai te fazer mais feliz, se quer mesmo saber de mim, comece pelas entrelinhas. Pelo não dito. Pelo movimento dos cílios e as pupilas dilatadas, os olhos nervosos que não se fixam, o modo de apoiar o peso do corpo em uma das pernas e me preocupar com o cabelo. Olhe para as mãos que não sabem repousar e a voz que desafina. Por favor, sou tão ridiculamente fácil de decifrar e ainda insistem em seguir pelo caminho errado. Exponho-me tanto e ainda querem uma cartilha.

E fazem isso porque amam de relance, querem no momento e só por desafio. Porque têm preguiça ou medo de cumplicidade e acreditam perder a noite se optarem por se apaixonar pelo próprio ego. Porque perdem oportunidades de se calarem quando é papel dos olhos falar. É por isso que eu estou sozinha nesse mundo de luzes e pessoas. É por isso que eu saio de casa e minha roupa não precisa agradar ninguém além de mim. Porque não deixo o calor da minha rotina pra ser prenda em vitrine.

O que eu sou não lhe diz respeito, em parte nenhuma lhe toca. Mas se quiser mesmo saber de mim, experimente não me perguntar. E talvez assim desperte minha vontade de contar.

(Verônica Heiss)